ainda guardo no que antes fora minha sanidade
um retrato imoral do seu corpo nú
deitado sobre minha cama
amarrada em nós de corda e idéias
sua doce fragilidade
anjo...pecadora
teus suspiros em meus ouvidos
eram despudor pra um ex-pudorado
alimentava-me e saciava-me
e em cada passo novo deste segundo ato teatral
eu sentiaem ti algo quebrando
hora o juízo, hora o conceito de amor
e nos manchavamos com impurezas desse mundo banal
rindo das coisas normais
e nos entrelaçando nos nossos corpos suados
e ríamos de cada pessoa perturbada
enquanto eu e você nos deleitavamos
dois animais, dois corpos apenas
nada muito sentimental
mas na hora seguinte eu ja me definhava
em teus cabelos longos...claros
e a noite me parecia vazia
pois amanhã acordaria sem você
e voltaria a viver a vida
nada mais de risadas, piadas sobre tiranos e reis
nada mais do que um simples pedaço de você em mim
o pedaço de mim que você me roubou
e que estará sempre guardado
no relicário do nosso caso de uma noite só
Pra calar a imensidão com um grito
Futuro sem ti é passado sem mim
por que me roubaste teu olhar guardado
que com carinho gravei em minha retina
por que me tiraste de mim aos poucos
e foi me colocando cada vez mais em você
por que teu silêncio é musica em meus ouvidos?
e dizendo nada tu me contas tudo
jogamos conversas fora
e depois nos batizamos em risadas banais
falamos das pessoas comuns
e nos olhamos sempre por entre mascaras
que são quebradas em cada frase perfeita
daquelas que só saem da tua boca
por que fizeste de mim mais um louco
se louco de amor por ti já era
e cada vez mais acho pouco
o futuro que sem ti me espera!
Apesar de nós
bato a tua porta
derubo o teu jardim
volto ao bar
me entrelaço em qualquer abraço
e fujo pro meu refugio
sujo apesar de limpo
sempre quase completo
sem você
e aí?
o que há de ser?
de mim sem você?
nada a se esperar
a não ser o pouco
que me sobra do que eu um dia fui
te guardei em mim
me perdi em ti
te trousse em mim
me esqueci no teu casaco
a flor que tatuou na tua pele
ficou cravada na minha cabeça
e apesar de tudo
só peço que não se esqueça
de como fomos felizes
apesar de nós
Eu e ela!
é tudo silêncio em teu olhar
perplexo, silêncio doce afago
é tudo verdade nas tuas mentiras
teus lábios sempre dizem a verdade
a tua pele ainda se esquiva
dos ventos fortes do outono passado
mas eu vejo a tua alma
e dela brotam palavras
que nem mesmo tua mente
consegue omitir
e eu vejo teu corpo
de um jeito que nem tuas roupas
conseguem tapar
eu vejo você
como nem você se vê
através de teus olhos
o meu reflexo te olhando
é tudo silêncio
quando você proclama
versos em forma de gírias
e me abraça desapontada
com qualquer briga a toa
assim como é tudo barulho
quando eu sinto teu coração por entre tuas veias
e tua aura por entre tua pele
e a vida brinca mais uma vez
de nos tornar somente dois
sempre menos que só um!
Eu e os outros!
que me matem
que me atirem
que me amordacem
que me queimem
que me matem
que se calem
que se quixem
que se esbaldem
que se finjam
que se mastiguem
que se discutam
que se danem
que se lasquem
que se fodam...


