No porta retrato já vazio
Paradoxal amor perfeito
Sei rimar amor com dor
Não, não vou fugir de mim mesmo de novo
e dizer palavras sem sentido
não vou curar a minha dor
me entorpecendo de meus vícios
mas vou fingir de todo o jeito
até acreditar que mesmo sem te ter
eu nunca quis te amar
e se você quiser
eu tenho flores pra te dar
presentes a te trazer
poemas pra te recitar
mas não se engane amor
com meu jeito sentimental
fato é que eu
ainda não sei amar
meu coração tão cego e frágil
ainda não sabe se doar
e se entrega por inteiro
sem sequer se entregar
e é me contradizendo que te amo pelo avesso
sem saber se me amas
ou se tal amor mereço
não sei o que amar
não sei o que é lhe ter
não sei mais te olhar
sem querer lhe querer
e as rosas que roubei pra lhe doar
murcharam ao ver meu amor fugir
e quando minha covardia ousa dizer que não
algo no meu peito vai ao chão
e minha mente teima em me fazer correr
mas o corpo obedece ao coração
tão masoquista
tão sofredor
machuca tanto que só pode ser amor
Tortos e direitos
E se estou te esperando amor
basta acreditar
pois se estou aqui
é pra aprender a amar
mas não me julgue
com teu olhar pilantra
a gente inventa a solidão
pra disfarçar nossa fraqueza
e no fundo você sabe
que eu sei que você me ama
mas mentimos pra nós mesmos
o tempo inteiro
e você vai embora
com teus olhos marginais
olhando outros olhos
em lágrimas irreais
e eu te abandono lentamente
maluco pra voltar
e você discretamente
finge não ligar
a gente inventa cena
se joga na sarjeta
se finge de morto
ama sem querer
a gente inventa a nossa força
pra esconder a solidão
e é nos amando erradamente
que nos amamos em perfeição
pois tão errado quanto o preço
de se comprar o que é dado
é descartar um coração
que bate forte apaixonado
e velas voam meu amor
peixes nadam mais devagar
outono e inverno se convergem
ao te ver passar
e o que não acontecia passa a acontecer
toda vez que eu descubro que ainda amo você
Campos elízios
Diz-me que não queres o que não posso oferecer
a lua de outono, mares vermelhos ponho aos teus pés
mas toda vez que o sol se vai
te vejo chorar
talvez rezando pra que o amanhã chegue logo
e já tão cedo que é quase tarde
se põe a em meu lado dizer que me ama
e te digo minha menina
luz para a escuridão
e paz para palestina
que perto dos teus olhos
de estrelas o céu se esvai
junto de teus lábios
o horizonte perde simetria
ao som da tua voz
quase sinfonia
dedilho em teus cabelos
do nosso amor a melodia
recitas com tua voz
sonetos perfeitos
em prosa homérica
me perco tateando teu ego
em liturgia repouso
em teu leito sossego
pois em verdade te juro
que te amo e não nego
Soneto do amor em chamas
Queima-me se achares mentira fingida em meu olhar
que te devora feito alma quando passas
jura-me de morte, se não for amor o meu amar
que fica mais forte a qualquer mero gesto que faças
decerto não duvide do fogo no chão
que alastra luz onde antes somente houvera noite
nem do chão a gozar queimando de sua solidão
que não passas nem quando queimas em seu açoite
coíba de mim esse fogo
que se alastra em meu chão tão solitário
pois sou só mais uma peça em um jogo
um amante sozinho é apenas um coringa do baralho
arde sim, não há como negar
o fogo traiçoeiro que se queima ao amar


